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Atletismo, Me

primeira ultra-experiência

Há experiências na vida que nos marcam bastante, que nos fazem atingir os limites e nos põem à prova, por vezes em situações-limite – são essas as verdadeiras experiências da vida – aquelas que guardamos para depois contar a filhos e netos. O Ultra Trail da Serra da Freita é uma delas.

Mas a história desta aventura começa, como é óbvio, quando a inscrição foi submetida, em Abril. Esta seria a maior distância que iria fazer: 70 km, em plena natureza selvagem.
Nos meses de permeio, depois da recuperação de uma pequena mazela no joelho, lá iniciei os treinos, e tentei preparar-me da melhor forma para o que iria enfrentar.
O grande dia tinha chegado (28 de junho de 2014). As 5h45 tinham batido, e, alguns segundos depois, cerca de 300 e poucos marmanjos desapareciam no verde da floresta, seguindo o trilho. O nevoeiro varria toda a zona, e, na cara, fazia-se sentir uma morrinha, fruto da água condensada. Os primeiros quilómetros fizeram-se com este ‘ambiente’, e com o dia a ir, progressivamente, clareando.

Depois de percorrer o planalto, a primeira amostra da dureza da prova chegava ao km 8. Aqui iniciava o “trilho do carteiro”, com cerca de 6 km, sempre em descida, maioritariamente composta por degraus, que me lembrou – e de que forma! – que tinha quadríceps. Daqui até ao primeiro abastecimento – em Covelo de Paivó -, tivemos o primeiro contacto com o rio Paivó. Ao longo de 2,5 km, o andamento foi reduzido para transpor os diversos obstáculos que o leito nos oferecia. Ao chegar ao abastecimento, a chuva voltou.

Após 2h52 e 21,5km de prova, estava na altura de ingerir algumas calorias, e confortar o estômago com algo mais sólido. A paragem foi curta e segui. A partir daqui, começava a prova propriamente dita: iríamos subir a encosta de lajes de xisto e fazer 400m D+ em cerca de 6km, até chegar à aldeia abandonada de Drave. Era o trilho dos Incas.

Durante esta subida, senti, pela primeira vez, o meu joelho – aquele que estivera lesionado – mas nada de mais. Por volta do km 26, foi a vez do azar me bater à porta: quase a terminar o trilho dos Incas, depois de uma povoação, a subir, ia, de cabeça baixa, e ligeiramente fora do caminho, que tinha muita pedra solta, e queria regressar ao mesmo, quando, sem reparar, dou uma cabeçada numa raiz saliente. A cabeça começou a latejar e, passados alguns segundos, levei a mão à testa. Estava a sangrar.

Estavam mais dois companheiros comigo, e pedi a um deles para ver o que me tinha acontecido. Tirei o chapéu, e disse-me logo que tinha um corte pequenino, mas profundo: devia precisar ali de ‘um ponto’. Lá tentámos lavar a ferida, e o outro tinha um penso rápido, que aplicámos. Passei a mão nas ervas, tentando recolher a água que tinham, da chuva que caía, e passei na cara, duas ou três vezes, de modo a que não ficasse tão ensanguentado na cara, e seguimos juntos até ao abastecimento dos 30km, em Drave.

Após 4h06 (+/- o programado) estava na aldeia de Drave, um lugar especial para mim, por lá ter vivido alguns momentos especiais enquanto caminheiro. Aqui, o abastecimento, era apenas líquido. Enchi o meu reservatório que o Sandro me tinha emprestado e expliquei o que me acontecera. Sorte ou não, havia por ali uma médica, mas não havia qualquer equipamento para fazer face a este tipo de imprevisto. Queria desinfetar, rapar um bocadinho de cabelo e suturar-me logo ali. Lá arranjou uma ligadura, em que me apertou e envolveu a cabeça. O chapéu, pu-lo por cima, e segui.

Novo troço de ribeira, desta vez por mais 2km, sempre a descer, para depois seguirmos pelas encostas e voltarmos a atravessar o rio. E, aqui, iniciávamos a subida para os ‘3 Pinheiros’, pelo trilho dos Aztecas, com uma inclinação média de 26%. Era uma subida completamente despida de vegetação, com 3 pinheiros grandes no seu topo, onde, em cerca de 1km, vencíamos 266m de D+. Na sua base, uma placa, com a inscrição: “Encha aqui o reservatório”, fazia-nos pensar duas vezes.

Quando cheguei ao topo, à cota 843, o vento e a chuva miúda faziam das suas, estavam completamente irados. E, aí, tive outra visão de como a serra é verdadeiramente poderosa: um atleta puxava pela sua manta térmica e embrulhava-se nela.

Algumas centenas de metros depois, estava na Póvoa das Leiras, com 38,7 km e num novo posto de abastecimento. Era a preparação para a “Besta 2”. É engraçado como cada vez nos demoramos mais nestes postos, aqui foram 8 minutos.

De volta ao trilho, a ansiedade aumentava. Como seria esta nova Besta? Será que a iria conseguir ultrapassar sem problemas? Uma inscrição, depois de uma levada de água, fazia o anúncio: “Vem aí a BESTA”. Então, vamos a isso! E, metro a metro, degrau a degrau, lá transpus aquele quilómetro vertical com cerca de 36% de inclinação média, com muitas pedras e água no seu caminho. No final, tinha adorado, e estava nas torres eólicas, no ponto mais alto da serra, a 1100m!
Estando no cimo da serra, decido ver se havia rede de telemóvel. Claro que havia, estava próximo das antenas! E, enquanto corro, envio uma sms para casa, para tranquilizar as pessoas: “Prova a correr bem. 44km. 7h40 de prova 🙂. Eram 13h25, mais coisa menos coisa.
Agora seguia-se uma longa descida até Manhouce, com partes algo técnicas. Por vezes era preciso saltar de calhaus enormes para outros parecidos. Inesperadamente, com 46,7 km, estava no posto de abastecimento dos 50 km, que, ao que parecia, tinha sido deslocado. Mais 7 minutos gastos na ingestão de líquidos, comer alguns salgados e encher o reservatório, e segui caminho.

Agora descíamos para o Rio Teixeira. O grupo era de 4 pessoas, e, na memória, trazíamos a lembrança que, depois do rio, faltaria apenas uma subida enorme e tínhamos a prova “feita”. Mas tal não se sucedeu. Depois de se estar no rio, o trilho, efectivamente, subia a encosta, até próximo do muro de uma propriedade, mas depressa desceu, mais uma vez na direcção do rio, e, aqui, as cordas montadas pela organização foram importantíssimas, senão tinha sido tudo a rebolar por ali abaixo, que seria um fartote! Basicamente, o que aconteceu foi subir, descer e voltar a subir encosta acima, por entre campos agrícolas, e, finalmente, por estrada, até à Lomba.

Depois de 10h27 de prova, e já com 55 km nas pernas (segundo os meus relógios, porque aquele seria o km 60 segundo a organização), esperava-nos uma bela canja, bifana no pão, café, e, para quem quisesse, as tão famosas minis (LOL). Aqui aproveitei para me sentar um bocadinho a digerir as minhas duas sopas, que me souberam pela vida, comi mais algumas batatas fritas e, de súbito, puseram-me o “presidente” ao telefone: “Como é, meu? Ainda respiras?”. “Respiro pois, e tu?”, disse-lhe eu, dado que ele, se não tivesse sido operado ao septo nasal, provavelmente, também estaria ali. Deu-me algumas palavras de força e motivação, e lá segui, depois de um quarto de hora sentado naquela cadeira.

freita2Pela frente tinha a subida da Lomba, e, nos últimos quilómetros, já o joelho esquerdo me tinha atormentado. Parecia completamente preso de movimentos e foi com alguma dificuldade que fiz o troço desde o rio até ali. De regresso ao trilho, tentei suportar o melhor que pude a dor, que desaparecia quando era plano… Mas ainda faltavam 10 quilómetros. Lá fiz das tripas coração e segui com o companheiro que me tinha ajudado no corte na cabeça. Fizemos o resto da Lomba juntos, sempre a caminhar na serra despida, em direcção ao seu topo, e começando já a ver elementos refletores nas fitas da organização. Dali a umas horas, o pessoal iria precisar deles (já eram 16h12).

No topo da serra, pudemos observar o nosso último ponto de abastecimento, na aldeia de Castanheira, próximo da jazida das famosas pedras parideiras. Uma hora e cinco minutos depois tínhamos cumprido os 5,3 km que distavam entre pontos, petiscávamos de novo algumas coisas a granel, enquanto falávamos com uma senhora espanhola e dávamos algumas risadas. Três minutos depois, largávamos novamente a correr pelas ruas da povoação.

A Mizarela era o último dos nossos desafios. Era necessário descer ao rio (à cota 648), que a cortava, e voltar, outra vez, cá a cima, aos 916 m, para terminar a prova. Tudo isto em cerca de 2,5 km e inclinação média de 18%, por entre degraus de pedra e terra, que desciam abruptamente até ao rio, e outros que iam no sentido oposto. Depois de tal demanda, quase no topo do monte, parei alguns segundos para observar a Frecha que dava o nome ao lugar, de tão imponente que era, esquecendo, por momentos, todo o sofrimento.

No último quilómetro, próximo do miradouro, novo alento a quem aqui conseguia chegar, com algumas pessoas a puxarem pelos atletas. Nesta altura ia sozinho – o meu companheiro estava 300 metros à minha frente, a cerca de um minuto – mas é aqui que vamos buscar forças a todos os lados e mais algum para terminarmos a prova. Na parte final, enveredávamos pela floresta próxima do parque de campismo e terminávamos no local de onde tínhamos partido. No meu caso, 13 horas e 65 km depois do tiro de partida, sendo o 51º homem a fazê-lo, e o 28º sénior masculino a cortar a linha de meta.

E terminei desta forma a minha primeira ultra-experiência, logo com esta mítica prova.
No dia seguinte doía-me tudo, mal me podia mexer, tendo levado quase uma semana a recuperar de todo este empeno.
No entanto, já pensava em qual seria o próximo desafio.

Foi sem dúvida um desafio enorme, pela exigência quer física, quer psicológica a que toda a prova nos submete, sem nunca esquecer o ambiente criado em torno da mesma, a beleza e a dureza do espaço envolvente.

Sobrevivi!

O meu percurso: http://connect.garmin.com/modern/activity/533305783
Resultados: http://confraria-trotamontes.com/utsf/results/2014/ultra/

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